Ele foi um homem, um ator
ou um super-herói? Christopher Reeve, que faleceu no
domingo, 10 de outubro, foi sinônimo de Superman desde
o início de sua carreira. De lá para cá,
viveu personagens menos marcantes que o Homem de Aço,
mas interpretou um papel fundamental na vida ao dedicar-se
a ajudar pessoas que sofrem de paralisia – um mal que
o atingiu em 1995, quando sofreu um acidente enquanto cavalgava.
Reeve teve um ataque cardíaco
fulminante no último sábado, 9, que o deixou
em coma. Aos 52 anos, ele estava em sua casa, em Pound Ridge,
Nova York, e foi hospitalizado logo em seguida. No domingo,
não resistiu. Uma semana antes, Reeve havia desenvolvido
uma grave infecção em um ferimento decorrente
de sua paralisia, e estava em tratamento quando sofreu o infarto.
Natural de Nova York, Reeve
já era ator profissional enquanto cursava a universidade
de Cornell. Paralelamente à graduação,
entrou para a renomada escola de teatro Juilliard e, em 1974,
teve seu primeiro papel na TV, no seriado Love of Life. Trabalhou
no programa por duas temporadas, até fazer sua estréia
no cinema, em 1978, com uma pequena participação
em S.O.S. Submarino Nuclear, filme estrelado por Charlton
Heston e David Carradine.
No mesmo ano, Reeve mostrou
seu até então desconhecido rosto para o mundo
sob um nome que as pessoas passaram a ligar imediatamente
a sua pessoa: Clark Kent, ou Superman. O diretor Richard Donner
descobriu aquele ator e encarregou-se de fazer o público
acreditar que um homem pode voar. Claro, sem o carisma e a
dedicação de Reeve, o personagem não
teria se tornado tão emblemático no cinema.
Afinal, mesmo que a série de filmes do herói
tenha decaído em qualidade, Reeve permaneceu comprometido
com o personagem até o último longa, protagonizando
cenas que se tornaram mais memoráveis que as próprias
tramas. Superman III, por exemplo, é salvo do desastre
graças a Reeve. Na seqüência em que Superman
deixa de lado as obrigações de herói
e chega até mesmo a se embebedar em um bar, Reeve realmente
transforma o personagem. Quando suas duas personalidades se
enfrentam em um ferro-velho, então, ele alcança
o auge. É um momento que ficou gravado na mente de
várias crianças e que, ao lado de vários
outros de Reeve como Superman, formam um verdadeiro legado
que até hoje não foi superado por qualquer outro
intérprete do “último filho de Krypton”.
Mas a carreira de Reeve foi
além de Metrópolis e o Planeta Diário.
Embora, injustamente, o ator não tenha conquistado
fama por seus outros papéis, Reeve se esforçou
para viver experiências profissionais mais desafiadoras.
Em 1980, logo depois de Superman II, ele estrelou ao lado
de Jane Seymour o romance Em Algum Lugar do Passado (foto),
que talvez seja seu segundo trabalho mais conhecido, embora
os seguintes tenham contado com nomes ilustres ao lado do
seu. Em 1982, contracenou com Michael Caine em Armadilha Mortal,
de Sidney Lumet, e protagonizou o drama Monsenhor. Em Os Bostonians,
de 1984, teve a oportunidade de trabalhar com Vanessa Redgrave
e Jessica Tandy, e, em 1985, foi dirigido por George Miller
em The Aviator. No mesmo ano, esteve com Jacqueline Bisset
na adaptação para televisão de Anna Karenina.
E antes de vestir a capa de Superman pela última vez,
estrelou o policial Armação Perigosa (1987),
que contou com coadjuvantes do calibre de Morgan Freeman e
Kathy Baker.
Após incluir esses
trabalhos em seu currículo, Reeve seguiu alternando
entre o cinema, a TV (onde participou de vários telefilmes
e minisséries) e o teatro. Apareceu poucas vezes na
telona até 1995, chegando a recusar dois papéis
que acabaram indo para Arnold Schwarzenegger (em O Sobrevivente
e O Vingador do Futuro), mas sempre se mostrou um ator versátil.
Fez comédia em Troca de Maridos (1988), Impróprio
Para Menores (1992) e Apenas Bons Amigos... (1994), drama
em Vestígios do Dia (1993), terror em A Cidade dos
Amaldiçoados (foto) e thriller policial em Sem Suspeita,
ambos de 1995.
Em 27 de maio daquele ano,
Reeve sofreu um acidente durante uma competição
de equitação. A queda do cavalo o deixou tetraplégico
– ironia do destino, seu personagem em Sem Suspeita
sofria de paralisia. A carreira de Reeve não acabou
com isso, mas, por razões óbvias, sua saúde
tornou-se prioridade. Depois de passar por uma longa terapia,
ele conseguiu voltar a respirar sem a ajuda de aparelhos e,
em 1996, já fazia aparições públicas.
“Ou você decide permanecer no fim raso da piscina,
ou você vai para o oceano”, disse certa vez. A
perseverança de Reeve serviu como exemplo de vida para
muitas pessoas. Ele jamais desistiu de lutar em sua recuperação
e sua definição de “herói”
se encaixa perfeitamente em seu próprio exemplo: “Um
herói é um sujeito comum que encontra força
para persistir e resistir apesar de obstáculos devastadores”.
Embora permanecesse incapaz de mover seus membros (somente
em 2000, ele conseguiu mexer o dedo indicador), em 1998, Reeve
produziu e protagonizou uma refilmagem para TV de Janela Indiscreta,
clássico de Alfred Hitchcock. O último papel
principal de sua carreira lhe rendeu uma indicação
ao Globo de Ouro e o prêmio do Screen Actors Guild –
seus dois maiores reconhecimentos artísticos em premiações,
à exceção do Bafta conquistado em 1979,
como Melhor Revelação, por Superman.
Ao lado da esposa, Dana Reeve,
Christopher inaugurou o primeiro centro de tratamento dedicado
a pessoas vítimas da paralisia, em 2002. O objetivo
da instituição localizada em Nova Jersey é
ajudar pessoas paralíticas a viverem mais independentes,
além de incentivar a pesquisa e o uso de células-tronco
no tratamento de doenças relacionadas.
Uma das últimas aparições
de Reeve foi no seriado Smallville, interpretando um cientista
no episódio Legado, exibido em abril deste ano. Em
1997, Reeve dirigiu o telefilme Armadilha Selvagem, estrelado
por Glenn Close e Bridget Fonda, e voltou à função
no drama protagonizado por Lacey Chabert, The Brooke Ellison
Story, também para TV, que está programado para
estrear ainda este mês, nos Estados Unidos. Este foi
seu último trabalho.
Se, assim como nos filmes,
fosse possível voltar o tempo fazendo o planeta girar
ao contrário, como em Superman, ou mesmo usar uma sessão
de hipnose, como Em Algum Lugar do Passado, poderíamos
tentar trazer Reeve de volta. Também diferente dos
quadrinhos, aqui, o Superman não vai retornar da morte.
Mesmo que se encontre outro ator para assumir o papel do herói
em futuros filmes, foi Reeve quem o imortalizou e, ao menos
para toda uma geração de espectadores, isso
não vai mudar. Way to go, Christopher. Sentiremos sua
falta.
“Eu
vi em primeira mão como Superman realmente transforma
as vidas das pessoas. Eu vi crianças morrendo de tumores
cerebrais que queriam como último pedido poderem falar
comigo, e irem para seus túmulos com uma paz proporcionada
por saberem que sua fé neste tipo de personagem permanece
intacta. Eu vi que Superman realmente importa. Elas estão
conectadas a algo muito básico: a habilidade de superar
obstáculos, a habilidade de persistir, a habilidade
de entender a dificuldade e encará-la.”
-
Christopher Reeve