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CULTURA

Cultura Cearense

Literatura de Cordel

Cena de um folheteiro em ação, em 1976, numa feira do Cariri. Este singular meio de comunicação de massas surgido na Península Ibérica e trazido para o Nordeste do Brasil, aportou aqui, segundo os pesquisadores mais autorizados, em fins do século XIX. Durante muito tempo, foi o único veículo de comunicação de que dispunham as populações rurais, antes do surgimento do rádio. Chama-se Literatura de Cordel porque a maioria dos vendedores costumavam pendurar os folhetos em cordéis, nas feiras nordestinas. Segundo o grande folclorista Câmara Cascudo, os primeiros folhetos de cordel foram impressos em Recife (PE), por volta de 1873.

No Ceará, o cordel desenvolveu-se extraordinariamente em Juazeiro do Norte, desde as primeiras décadas deste século. Um dos primeiros poetas a se estabelecer na "Meca do Cariri" foi o paraibano João Quinto Sobrinho, posteriormente denominado João de Cristo Rei - O Arauto do Padre Cícero, que fixou moradia na "Terra do meu Padim" por volta de 1930. Seus folhetos, quase todos de temática religiosa e profética, foram produzidos sob influência do seu guia espiritual.

Por essa época, veio fixar-se também em Juazeiro do Norte, o poeta alagoano José Bernardo da Silva, que viria a fundar na década de 40 a Tipografia São Francisco, responsável, até o início da década de 80, por quase toda a produção de folhetos vendidos no Ceará e demais Estados nordestinos. Em 1945, Zé Bernardo adquiriu os direitos autorais das obras editadas por João Martins de Athayde, à época, o maior editor do gênero, que resolvera encerrar suas atividades. Athayde detinha, mediante compra, os direitos sobre a vasta obra do paraibano Leandro Gomes de Barros, o maior poeta popular de todos os tempos, autor de dezenas de clássicos da Literatura de Cordel. Em 1949, portanto, todo este acervo passou a pertencer a José Bernardo da Silva, dando grande impulso à Tipografia São Francisco, já nesta época uma das maiores, senão a maior das especializadas em Cordel no Nordeste.

No seu catálogo, estavam presentes também obras do poeta pernambucano José Pacheco da Rocha, o mais irreverente e satírico cordelista de todos os tempos, autor do famoso clássico "A Chegada de Lampião no Inferno".

"Um cabra de Lampião Por nome Pilão Deitado Que morreu numa trincheira A certo tempo passado Agora pelo sert ão Anda correndo a visão Fazendo mal assombrado" "E foi quem trouxe a notícia Que viu Lampião chegar O inferno nesse dia Faltou pouco pra virar Incendiou-se o mercado Morreu tanto cão queimado Que faz pena até contar..."

Zé Pacheco é autor também de "O Grande Debate de Lampião com S. Pedro", "A Intriga do Cachorro com o Gato", "Propaganda do Matuto com um Balaio de Maxixe", "Os mamadores da Negra d'um peito só" e muitos outros repletos de bom humor. Pouco se sabe sobre seus dados biográficos. Segundo a Antologia "Literatura Popular em Verso", editada pela Casa de Rui Barbosa, José Pacheco teria morrido à mingua em Caruaru (PE). A filha do poeta, Julieta Pacheco Rocha, contesta essa versão na ficha técnica dos folhetos editados pela Editora Luzeiro, afirmando que o pai faleceu aos 27 de abril de 1954, em Maceió-AL, pobre sim, mas não à mingua.

Mas voltando a José Bernardo da Silva, muitos foram os xilógrafos e poetas que dele receberam incentivo. Desta lista, constam nomes famosos como Expedito Sebastião da Silva, Manoel Caboclo e Silva (fundador da Tipografia Lira Nordestina), Damásio de Paula, Mestre Noza e Stênio Diniz, seu neto. Nos anos 70, após a morte de José Bernardo, a Tipografia São Francisco viveu uma fase áurea sob a direção de sua família. Foi uma época também em que os pesquisadores do gênero passaram a demonstrar grande interesse pela xilogravura (gravura artesanal talhada em madeira), desenvolvendo sobremaneira a produção dessa arte.
Stênio Diniz, xilógrafo

Segundo o pesquisador Liêdo Maranhão, o chamado "auge" da Literatura de Cordel no Nordeste ocorreu de fato nas décadas de 40 e 50, época em que predominava a política populista de Getúlio Vargas. Liêdo Maranhão revela-nos fatos significativos, como os cordéis de maior tiragem nessa época. Dois estão ligados a grandes personalidades políticas da época e tratam sobre a morte de Getúlio Vargas e Agamenon Magalhães. As tiragens batiam recordes, em apenas 3 meses, um folheteiro do Piauí vendeu mais de 10 mil exemplares de um único folheto. Um agente de Fortaleza, Benedito Antônio de Matos, comprou de uma feita 50 mil folhetos ao poeta Joaquim Batista de Sena. Também o vendedor Antônio "Sola Crua", que atuava na Praça do Ferreira, em Fortaleza, informou que vendeu, durante uma única lida, 300 exemplares do cordel "A Louca do Jardim".

As duas maiores festas religiosas do Ceará, de Juazeiro do Norte e Canindé, representam ainda hoje o maior ajuntamento das populações rurais nordestinas, principalmente dos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Nelas, até o final da década de 70, era grande o número de vendedores de folhetos, como também era grande a procura do público pelo produto. Alguns percorriam diversos municípios, estabelecendo-se em feiras e aproveitando o ensejo de festividades religiosas.

Na década de 80, infelizmente, a Tipografia São Francisco fechou suas portas, desferindo um golpe mortal na produção dos grandes clássicos da Literatura de Cordel no seu formato tradicional. Atualmente, encontramos a maior parte dessas obras confeccionadas pela Editora Luzeiro, de São Paulo, com capa colorida e formato maior que o tradicional. A grande verdade é que o público moderno, mais exigente, se interessa por produções de melhor qualidade gráfica, decretando desse modo a morte do folheto tradicional com capa de xilogravura. Por outro lado, o Professor Gilmar de Carvalho, tem conquistado um espaço admirável para a arte da xilogravura, independentemente do cordel.

Classificações da Literatura de Cordel

Segundo a Antologia da Literatura de Cordel, editada em dois volumes em 1978, pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará - obra que merece urgentemente uma reedição revista e ampliada - "várias tentativas foram feitas no sentido de enquadrar-se a literatura de folhetos em determinadas divisões(...) Duvidamos da legitimidade das classificações eruditas da literatura de cordel. Ao escrever, o poeta não se preocupa com o possível enquadramento de sua obra numa ou outra divisão. O público é que, levado por suas próprias preferências, encarrega-se de batizar os folhetos de forma simples e espontânea: 'folhetos de exemplos, de conselhos, de carestia, de descaração, etc."
Capa em xilogravura do Romance "O PRÍNCIPE OSCAR E A RAINHA DAS ÁGUAS" de autoria de Stênio Diniz.

Temos observado um gênero que foi pouco explorado pelos 'classificadores' que é o folheto em forma de fábula, gênero popularizado mundialmente por Esopo e La Fontaine. Temos como exemplo disso, "O Casamento e o Divórcio da Lagartixa", de Leandro Gomes de Barros e "A Intriga do Cachorro com o Gato", de José Pacheco, onde ambos autores procuram censurar certos costumes da sociedade através de lições de moral, embora ditas de forma engraçada, colocando animais como personagens do enredo. O "Divórcio da Lagartixa" traz basicamente a mesma construção de "O côco da Lagartixa", uma antiga embolada pesquisada e adaptada pelo pernambucano Antônio Nóbrega, presente em seu disco "Madeira que cupim não rói". Parece que atribuir os maus costumes de certas mulheres ao inocente réptil é uma prática antiga no Nordeste. Senão vejamos:

"Eu ví uma lagartixa
Enganar pato e guiné
Teve filhos de uma pulga
Outro de um bicho-de-pé
Doze de uma cobra d'água
E vinte e três de um jacaré"
(Côco da Lagartixa - Adapt. Antônio Nóbrega)

"Disse a Lagartixa um dia:
'Eu só ficarei solteira
Se não encontrar na terra
Um diabo que me queira
Procurarei desde as casas
Até o largo da feira.
(...)

A Lagartixa então saiu
Vendendo azeite às canadas,
Encontrou com o Calango
Uma alma dispersada
Que andava com a moléstia
Procurando namorada.
(...)

Ora, o pai da Lagartixa
Era um pobre analfabeto
Entendia que o Calango
Fosse um mulato correto
Quando veio abrir os olhos
Foi tarde, já tinha neto."

Retomando o que diz a Antologia de 1978, "o universo dos folhetos é vasto. Abrange todas as facetas da vida do povo. Reflete assim, todo o processo da realidade deste mesmo povo. Dividir-se a realidade utilizando critérios alheios à mesma é um ato de violência." Apresentaremos a seguir duas classificações, uma de Ariano Suassuna, outra de Liêdo Maranhão.


 
 
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